Recensões

Laurent Lavaut

L' Image

A imagem é uma força, é portadora de poder, tendo a capacidade de dominar e impor a sua própria lei sobre os homens. A imagem é capaz de provocar em nós um desejo e uma crença. Ela tem o seu próprio discurso e poder, tendo uma dimensão sensível e visível (particularizando o olhar), paralisa a nossa mente e possibilita-nos uma abstracção, conduzindo-nos para um outro mundo. A imagem é espacial, é estática, muito embora seja evolutiva também, assim como dinâmica. Concretiza-se, nomeadamente, através da temporalidade. No entanto a imagem dos nossos dias, a imagem contemporânea, conduz-nos à multiplicidade, à reprodutibilidade e à própria relativização dos valores e seres. O facto de se produzir em massa a imagem leva a que originalidade e a própria crença e valores de culto se desvaneçam. Com a Contemporaneidade, com a vulgarização da imagem através dos media, toda a unidade e singularidade se perderam. Esta vem impossibilitar a distinção entre o que é imagem e o que é real, através do

Simulacro. As imagens contemporâneas acabaram por saturar o real, conduzindo-   -nos a uma irrealidade, procurando o novo discurso da imagem dificultar a distinção entre o que é fictício e o que é real.
    A imagem tem quatro características fundamentais:
1 – Particularidade
2 – Espacialidade
3 – Multiplicidade
4 – Irrealidade
Para compreender a essência de uma imagem, a sua substância e ontologia, é necessário observá-la atentamente, uma vez que esta origina a sua manifestação e entra no visível ou na visibilidade. As imagens devem permitir-nos entrar nelas e captar certos fenómenos como a espacialidade, a perspectiva, as cores, composição, reflexos, etc. A imagem revela a forma a posteriori do espaço e por isso é tão importante trabalhar a perspectiva de acordo com esta noção.
    Como fenómeno, a imagem conduz-nos a uma abstracção, permitindo-nos esquecer a coisa/objecto/modelo. Esta faz-nos acreditar na presença do objecto que representa, remetendo-nos para uma certa transcendência. Mas as imagens podem ainda inquietar o nosso olhar e mente, podendo confrontar-nos com um vazio, provocando emoções, recordações, fazendo-nos sentir saudade (como é o caso da fotografia, por exemplo). A imagem remete-nos para o objecto/modelo, remetendo ao mesmo tempo para a sua ausência, pois a cópia que é a imagem, não é um objecto em si. Desta forma, a imagem tem sempre uma dimensão metafísica, ultrapassando o próprio fenómeno. A metafísica teve um papel extremamente importante na imagem, sendo um exemplo primórdio de uma imagem não visível.

Imagem: mental, do mundo, percepção, imaginário

A imagem mental é um produto de espontaneidade do sujeito, tendo a capacidade de prender aquilo que é objectivo, permitindo que o sujeito se abstraía por completo daquilo que está a ver concretamente. Através do acto perceptivo, conseguimos ver através da imagem, um duplo mimético, um modelo, um objecto. Já a imagem do mundo é fundamentada no próprio fenómeno ou objecto que existe em si, no mundo que no rodeia e que é representado por imagens. Portanto, a imagem mental será um excerto da percepção original. Isto significa que a imaginação é um efeito criativo da matéria e das suas representações.

Quando percepcionamos algo, convém ter em atenção os vários pontos de vista a utilizar, para analisá-lo na exaustão. Ao contrário da percepção, a imagem é construída parte a parte, não sendo mais do que ela em si mesmo. Desta forma, podemos falar em pobreza da imagem mental, uma vez que a imagem não se reduz apenas ao conteúdo da consciência, sendo sempre uma representação de algo visível do exterior.

É importante focar que existem dois tipos de reprodução, produzidos pelo imaginário:

  1. A representação imaginada ou reproduzida: presença de um objecto exigida, pois a imagem é um duplo, sendo através da percepção original que a imagem é reproduzida. Esta liberta uma temporalidade afectiva da acção.
  2. A representação imaginária: imagem deixa as suas “amarras” para trazer ao real o irreal que será visto como absoluto. Esta fornece-nos acesso ao tempo da subjectividade.

Estratégias de Imagem

    A imagem pertence ao mundo sensível/visível e organiza um jogo de “presença-ausência” de um objecto. Esta permite uma articulação entre os membros de um sistema, o que lhe confere uma eficácia que se constrói através de uma tensão entre a semelhança e a diferença. A imagem não é uma simples imitação ou cópia, um duplo perfeito de um modelo. Ela não pode ser definida apenas como uma semelhança, pois é muito mais que um duplo, uma vez que ser imagem é trair um modelo.

Imagem Idealista

Platão foi o pioneiro da visão descontínua da imagem. Este filósofo é essencial para compreendermos propriamente distinção radical entre a imagem dita (eikôn) e a imagem do simulacro (eidolon). A imagem em si mesma (eikôn) abre a possibilidade para um mundo inteligível manifestando-se nela mesmo, esta tira o “véu” revelando-se a si mesma como modelo original. A origem do mundo e o que constitui depende de Deus. Falamos aqui de uma imagem tão perfeita que fascina pela sua beleza, sendo esta uma imagem muito sensacionalista que conduz ao simulacro (eidolon) que pretende rivalizar com o seu modelo e substitui-lo contrariamente ao que constitui a imagem em si mesma não idealizada. Quando falamos numa imagem simulacro, falamos de uma imagem que é produzida pela mão do Homem, o que faz com que deixe de ser reflexo ou sombra, passando a ser reprodução ou cópia. O eidoloné uma mimésis, imitação, cópia que não manifesta o verdadeiro “ser”, mas sim o “não-ser”. O que faz a imagem é a perspectiva da Alma, pois a imagem mostra-se no mundo visível e sensível através de reflexos e sobras, projectadas e relativizadas pela visão de cada alma, tornando-se assim a imagem reflexo da realidade inteligível. Por exemplo, nunca conseguimos desenhar algo verdadeiramente, o que fazemos é uma mera aproximação. É através do conhecimento discursivo que podemos repor o pensamento e recuperar a imagem em si mesma, abrindo o acesso à metafísica. É aqui que se dá uma ruptura entre o sensível e o inteligível.

A imagem - eidolon – funciona de uma maneira diferente, ou seja, quando a semelhança se torna excessiva demais, dá-se a dissemelhança, uma fuga à realidade. A estas imagens chamamos de simulacro, como já foi referido. Este simulacro, a imagem perfeita, é anti-metafísica, ou seja, deixa de ser “ser enquanto ser”, real e racional. A imagem perfeita é responsável, então, inferiorização do olha e inteligência.
    Platão defende a existência de duas concepções:

  1. A semelhança cobre a dissemelhança
  2. A dissemelhança reequilibra a semelhança (acedendo à metafísica)

Nos primeiros tempos de Platão, todas as coisas eram traços de inteligência e de metafísica, não existindo elemento algum que não fosse inteligível. Deste modo, a imagem era uma expressão do real a partir da sua origem inteligível (a inteligência e a metafísica eram superiores). Hoje, tudo está na imagem, sem ela caímos no nada, o que nos iria privar da relação entre imagem e inteligência.
Caixa de texto: 1 – Há reciprocidade entre imagem e o seu modelo: a imagem exige um elemento idêntico entre os seres semelhantes.    2 – A semelhança não exige um elemento idêntico e sim um diferente.

    Podemos concluir então, como análise de Platão, que a imagem permite articular ordens heterogéneas, preservando a transcendência, a metafísica, a inteligibilidade. Assim como permite estabelecer a continuidade homogénea.

As Imagens e as Coisas

    O pensamento platónico funda-se na definição, natureza e determinação da função da imagem. Platão fala-nos do Deus, do Marceneiro e do Pintor. Diz-nos que o Pintor tem menos conhecimento sobre “o Mundo das Ideias” do que o Marceneiro, isto porque este, apesar de ter um conhecimento mínimo das coisas e das ideias, fabrica as suas próprias ideias, as imagens das suas ideias. Já o Pintor, limita-se a copiar as imagens que são sombras das ideias, sendo este conhecimento menor.
    Platão fala-nos, igualmente de dois tipos de funcionamento da mimética: a forma e a reprodução, ou seja, toda a imitação articula dois níveis ontológicos hierarquizados: o real da forma e a sua imagem sensível.
    Enquanto o Marceneiro mantém um grau relativo à realidade e dá forma a algo que tem em mente, o Pintor procura copiar o mundo sensível. A imagem tem de ser a maior ligação e semelhança possível em relação ao seu modelo. Assim o pintor acaba por enfraquecer o original.
O problema não é definir a essência da imagem, mas perceber e remeter para os seus processos de produção. O produtor de imagens – ilusões, não é um produtor de imagens – cópias. É um produtor ilusionista que regra a sua arte sobre o objecto que nos fornece, trabalhando a imagem através da própria lei da perspectiva, definindo-a através do próprio olhar.

Para Platão, existem dois tipos de imagem: Uma objectiva, detectada pelos nossos sentidos da consciência, e outra subjectiva, advinda de uma ideia, de um pensamento. A necessidade desta subdivisão entre o mundo real e o mundo das ideias partiu da premissa de que tudo o que existe no mundo real é fruto do mundo das ideias. Embora os atributos filosóficos desta premissa quanto ao mundo natural sejam deveras complexos e necessitariam de um estudo específico para tal, podemos fixar-nos nas artes, das quais a fotografia faz parte. No campo da arte, não há como duvidar que toda a produção artística provém de uma ideia, e é manifestada no objecto de arte pelo artesão competente para tal. A ideia, portanto, antecede a realidade estética, e nela situa-se a matriz criadora de toda e qualquer manifestação artística. A importância deste conhecimento é evidente quando temos que produzir ou entender uma obra de espírito artístico, pois só conseguimos chegar a algum resultado na compreensão ou produção de uma obra se tentarmos detectar e interagir com essa matriz.

Imagem e Semelhança de Deus

A imagem é um conceito que pode ser instrumento do pensamento e da metafísica, pois abre-lhe portas para tal. Aliás, a imagem abre portas para o transcendente metafísico, permitindo-nos pensar no invisível e até acreditar naquilo que não vemos. A noção de imagem é importante para aprender a distinção entre o real e irreal.

A reflexão teológica foi o caminho ideal para explicar a matéria da imagem, pois “nós somos feitos à imagem e semelhança de Deus”; nós somos igualmente imagens, não são só as coisas que o são. Então a noção de imagem vai estabelecer uma enorme ligação entre o Homem e o Divino. Somos muito valiosos, pois somos a imagem de Deus, provindo daí o conceito de encarnação. Existe uma possibilidade do Deus encarnar no Homem, o que se diz ter acontecido: Deus fez Homem através de Cristo, seu filho, mostrando ao Homem que o humano é a imagem de Deus. A imagem no Homem transporta razão e livre arbítrio, ela define a natureza do Homem, todo o Homem na sua estrutura interior é parecido/semelhante ao seu Criador Deus. A universalidade do Homem foi fundada por Deus. O Homem é muito mais do que carne, aliás, o corpo é diferente da carne, não sendo o corpo apenas por uma realidade biológica, sendo muito mais complexo e simbólico. O Homem não é apenas uma criatura, é filho de Deus. A tensão existente entre o pecado e a graça traduz-se num jogo entre os pólos da dissemelhança/semelhança que estão presentes no conceito de imagem. O pecado é naquilo em que nos diferenciamos de Deus, ou seja, desfiguramos em nós a imagem de Deus/perda de identidade. A Graça restaura a Imagem, restituindo ao Homem a semelhança fiável com Deus e à sua identidade original. 

A imagem foi o modo que a Humanidade encontrou para Conservar Deus.

Cristo, Imagem do Pai

Cristo foi a restauração da imagem de Deus, constitui a ultima encarnação, o filho, a segunda pessoa da divina trindade, Jesus Cristo. “Cristo é a imagem de Deus invisível”. Através de Cristo é possível perceber que o Homem não é somente uma criatura modelada à semelhança do seu criador. O Homem acede ao patamar do filho amado por Deus pai. O filho foi igual ao Pai, então a imagem não tem qualquer deficiência ou inferioridade. A imagem de Cristo representa o “Deus invisível”, absolutamente anónimo e irrepresentável. É na imagem do filho que se deve reconhecer a presença absoluta da transcendência. As pessoas não estão, deste modo, sobre a hierarquia, estando todas no mesmo nível de dignidade.

Esta relação do Homem e a imagem é conhecida desde o cristianismo, remetendo para uma reelaboração da metafísica, pois o pensamento ontológico e teológico sobre o ser que provem dela. A imagem veio fundar o real, o visível. O Cristianismo veio instituir a imagem como meio cultural, como um conjunto de regras a seguir. Com o Cristianismo, e até aos dias de hoje, a imagem é vista como uma força, pois tem uma forte capacidade para influir a acção do Homem. Mas, a questão não estava apenas na representação de Deus, mas sim em que poder teria a Imagem de Deus sobre o Homem, sobre a Terra? Pensar uma imagem de Deus teve grandes proporções na Terra, provocando um grande conflito político-social, pois dar a Deus uma imagem era algo muito poderoso. Esta imagem tinha uma força enorme que afectava a actividade e emoção humana. Não devemos esquecer que a imagem tem muito a ver com o agir e com a paixão, tendo uma forte manipulação sobre os Homens.

A Paixão é uma ideia central na história do Cristianismo, movendo muitos povos. Esta paixão de Cristo e o seu sofrimento estão retratados e codificados em imagens e signos, imagens estas que nos alienam e que receamos ao mesmo tempo pelo poder que têm. Depois da morte de Cristo, a principal preocupação do Cristianismo foi encontrar uma forma possível de ver Deus, para que ninguém esquecesse e assim as imagens começarem a ser produzidas pelo Homem em massa. No entanto, toda a imagem fundada pela mão do Homem é infundada, é ilegítima.

A Querela dos Ícones

A estrutura teológica curva-se na definição de Cristo como imagem do Pai, logo irá abordar o problema do ícone. É muito importante restituir a guerra entre os iconoclastas e os iconólogos (os maldizentes e defensores do ícone), sendo este um conflito problemático. Os iconoclastas defendiam que todo o culto de imagens deveria ser interdito, perseguindo aqueles que adoravam imagens religiosas. Estes afirmavam uma concepção radical e transcendente em relação a Deus. A imagem de Deus não podia ser traída, não se podia relativizar a transcendência, pois é ela que antropomorfiza a nossa representação do divino. Os iconoclastas defendiam que apenas Cristo podia ser um ícone/imagem de Deus, pois assim não há nenhum perigo de antropomorfismo, pois é Deus que vem ele próprio habitar na forma humana, no filho.

Já os iconófilos vão realizar um trabalho de redefinição da noção de imagem, pois para estes, com a imagem, a transcendência não é traída ou humanizada, sendo, contrariamente, manifestada. Isto significa que passamos de uma representação do invisível para o visível, sendo os iconófilos os defensores da imagem encontrando o fundamento numa teologia da encarnação. São eles os que acreditam que o ícone de tornar o invisível no visível.
    A imagem recebe uma dupla justificação: por um lado ela é composta por um traço do poder do Criador, que lhe chama “ser” e lhe dá forma. Então a matéria, imagem, é boa porque é obra de Deus. Por outro lado, a matéria é santificada pela encarnação e ressurreição do Cristo. No entanto, não podemos dizer que o ícone representa directamente o invisível, pois a absoluta transcendência de Deus invisível não será ameaçada pelo ícone, assim como a natureza carnal e humana de Jesus não irá por em causa a dimensão transcendente de Deus. Adoramos um ídolo, um amuleto, temos uma crença em algo que é importante para nós, contemplamos algo inacessível. Deste modo, o ídolo é um simulacro (presença de Deus iminente), sendo o ícone uma imagem-cópia (revela a distancia entre o sensível à inteligibilidade).

Concluímos que o ícone é uma imagem, mas nem toda imagem é um ícone. Este é muito mais que uma livre representação de um mistério, deixada por conta da imaginação do artista; não se trata daquele espiritual fruto da sensibilidade, das divagações subjectivas e dos insípidos gostos pouco claros; não é um retrato no sentido moderno, secularizado e pouco transcendente. Ao contrário, a sua linguagem é simples e visa somente à glorificação do mistério. De facto, o ícone é: celebração do mistério da nossa salvação - Encarnação, Morte e Ressurreição - por isso, instrução dos fiéis. A iconografia cristã, na sua natureza, é semelhante a uma escola de oração e purificação interior, que tem por objectivo favorecer um encontro mais claro e sincero com Jesus e a sua Igreja.
A missão do iconógrafo é aquela de tornar visível e tangível a "Verdadeira Beleza", escondida no mistério silencioso das escrituras.

TEXTO DE Daniela Ventura

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